Capa negra
Como por magia despertaste todo um misticismo que julgava ser apenas isso: histórias de amores de estudantes, do poder da velha capa negra que aquece os corações e que faz viver momentos mágicos, como se o resto do mundo deixasse de fazer diferença.
Não consigo explicar de outra forma como é que num instante eras apenas mais uma no meio da multidão e noutro imediatamente a seguir estavas neste meu mundo ao som dessa melodia que nos envolvia, aquecidos pelo calor dessa paixão que se acendia com um vigor descontrolado. Finalmente senti-me parte integrante dessa magia negra que nos arrasta, nos rouba a vontade própria, o raciocínio, os medos, os fantasmas.
Só com o nascer do novo dia dou por mim a teu lado, como que num mundo irreal, inebriado, com os sentidos confusos por tantas sensações em simultâneo.
Parti então como que a levitar, a vaguear pelas ruas em direcção a casa, sonhando com a promessa do reencontro…
Cada dia que passava então era um tormento… “afinal o que se passou? o que foi isto?...” só queria que chegasse a hora de te voltar a ver, de perceber afinal quem eras tu, de te dizer quem sou eu….
Foi como que um encontro de dois desconhecidos, que não sabiam bem o que estavam ali a fazer a dizer aquelas coisas banais da vida de cada um… Afinal o que interessa isso? De que serviram nossos passados na noite em que nos conhecemos? De nada. Assim deveria ter continuado, passado e futuro fora da capa, deveríamos ter ficado apenas nós no nosso mundo protegidos por essa capa -qual escudo protector de fantasmas e tormentas.
Vem ficar nessa minha velha capa que também é tua, nela vais encontrar os teus segredos, os nossos segredos. Vem fugir dos teus medos, dos teus tormentos, do teu passado. Vem viver o presente, como se não houvesse amanha. Vem sentir esse calor ardente de paixão, o frio do vento a bater na face, a lágrima a cair nesta capa que te quer tal como és, que não te exige que sejas perfeita, que não espera de ti mil coisas, apenas a tua presença. Vem dançar por baixo desta capa a bailar ao vento, ao som dessa melodia. O que mais pode importar na vida?
Vem adormecer nos meus braços ao relento neste aconchego mágico, e ao nascer de um novo dia começar uma nova vida sem fantasmas…
Nuno Vicente, Março de 2007
